Alfredo Soares, fundador Xtech e sócio da VTEX

“Empreender não é uma linha reta”

Aos 26 anos, Alfredo Soares planejava sua independência financeira aos 30, quando sonhava que teria juntado R$ 1 milhão. Ele já tinha sua agência de publicidade, conseguiu bons clientes e acreditava estar no caminho certo. “De uma hora pra outra tudo mudou. Tomei uma ‘volta’ de pessoas que confiava, a empresa quebrou, gastei tudo o que eu tinha juntado. Parecia muito longe daquele sonho”, diz. Mas no final de 2017, 15 dias antes de completar 30 anos, ele concluiu a venda de sua empresa, a XTech Commerce, uma plataforma de e-commerce criada para que pequenas e micro empresas pudessem criar suas lojas, para a VTEX. A empresa é um dos líderes globais em e-commerce e pagou pela startup de Alfredo por R$ 14 milhões, e o contratou como head global para pequenas e micro empresas. O sonho do primeiro milhão se realizou, mas por conta de uma mudança na maneira como Alfredo passou a ver os negócios. “Meu sonho só virou realidade quando parei de ter o dinheiro como objetivo. Quando comecei a lutar para que meus clientes vendessem mais, abrissem mais uma loja, quando passei a ficar feliz quando via mais gente usando a minha marca. A gente iria ganhar dinheiro, sim, mas quando fizesse os clientes faturarem mais”.

Entre os 26 e os 30 anos, a trajetória foi acelerada. Ele montou a primeira agência para pequenas empresas, a Marketing Shop, com a ajuda de duas amigas. Depois encontrou seus sócios atuais, Ricardo Oliveira e Jordão Bevilaqua, e abriram a XTech e a Social Rocket, essa última voltada para gerenciar redes sociais. A carreira rápida tem muito a ver com os aprendizados de Alfredo durante os anos em que jogou pólo aquático, primeiro no Tijuca Tênis Clube e depois no Fluminense. “Aprendi persistência, disciplina e humildade. Aprendi a segurar o ego porque você tem que saber também a hora de sair, ninguém consegue jogar uma partida inteira. Tem que atuar como time mesmo”, conta. Aqui, ele fala um pouco mais do 10 anos entre a agência experimental da faculdade e o cargo em uma das principais empresas do seu mercado no mundo.

Você diz que deve muito de sua trajetória como empreendedor ao esporte. Como você relaciona as duas áreas?

No polo aquático aprendi sobre a importância de treinar bem para jogar bem. Isso prova o poder da rotina e a importância de ser consistente. Ter que malhar e treinar todo dia, fazer tudo certinho e ver o resultado… Aprendi muito a trabalhar em equipe, menos ego pelo bem coletivo. Porque é impossível você jogar uma partida inteira. Você tem que saber qual o momento de parar e pedir pra sair… Tudo em nome da equipe. O esporte também me moldou a ser competitivo e a buscar ser o melhor sempre. Muitos conceitos, muitos valores, eu aprendi durante essa época.

Você chegou a dizer que sonhava em se “aposentar” aos 30, mas acabou de assumir um cargo de liderança em uma empresa líder global. Como foi essa mudança de planos e o que ganhou com ela?

Hoje, mais maduro, eu vejo que sempre se tratou de conquistar a independência financeira e não me aposentar. Nem me imagino assim. Depois de vender a empresa e ter a sonhada realização financeira e profissional, percebi que o sucesso está ligado à liberdade. Hoje, sucesso é poder trabalhar sem pensar só no agora, mas no que eu estou fazendo para mudar a vida daqueles empreendedores que usam a minha tecnologia. O que posso falar na minha palestra para mudar a vida das pessoas que assistem? Eu posso estar sempre fazendo hoje e planejando o amanhã. E essa liberdade de poder viver assim, sem estar naquela correria do dia-a-dia, é o me dá motivação pra renunciar às milhares de coisas legais que a vida me apresenta em nome de alcançar meus sonhos. No esporte era assim e continua sendo assim na vida.

Além de persistência, qual é a qualidade que te ajudou nessa trajetória?

Acredito que a capacidade de conectar ideias, oportunidades e pessoas. Sou bom em networking para construir ecossistemas. Sempre fui muito vendedor também. Além disso, me considero um cara  rápido em engenharia reversa e um profissional mão na massa.

Como foi o começo da sua vida de empreendedor?

Eu fui fazer faculdade de publicidade, paga pelo Fluminense, e resolvi trabalhar na agência experimental já no primeiro período. Mas havia muita cobrança: no Fluminense, para treinar todo dia, e como parte da equipe de atendimento da agência. E isso reforçou o lado vendedor, algo que eu já tinha muito forte. Eu acredito que vender não é trocar produto e serviço, é conquista, encantamento. Mas uma hora o professor da faculdade me pediu pra escolher entre a agência e o esporte porque não tinha como conciliar as agendas. Escolhi o esporte mas, como tinha algum tempo livre, abri minha própria agência. Eu até tentei um emprego antes, só que precisava ser filho ou amigo de alguém conhecido no mercado pra ser contratado. Foi aí que montei a Conceitual 360, minha primeira empresa.

E como nasceu a XTech?

Alguns anos depois, as coisas tinham dado errado, eu tive que fechar a agência, fiquei muito mal por tudo o que havia acontecido. Mas me reergui e resolvi montar a Marketing Shop com a ajuda de duas amigas, uma agência voltada para pequenos e micros. Aí eu chamei Ricardo Oliveira, hoje meu sócio, para se juntar comigo e com o Jordão Bevilaqua, que já estava na sociedade. Foi quando percebemos que esse público precisava de uma plataforma de e-commerce automatizada, em que tivessem a solução completa pois não podiam investir alto. Assim nasceu a Xtech Commerce, que era exatamente voltada para agências, designers e programadores ganharem dinheiro e terem mais facilidade vendendo seu produto. Em dois anos, já tínhamos um tamanho considerável e começamos a tentar outras oportunidades para esse perfil. E aí foi quando a gente lançou a Social Rocket, que cuida das redes sociais desses clientes. E, finalmente, em 2017, veio a negociação com a VTEX, que é uma das cinco maiores plataformas de e-commerce do mundo.

O que acha de ter vendido seu negócio e hoje estar dentro de uma empresa global?

Muitas pessoas me perguntam isso como se fosse algo ruim ter vendido meu negócio… Mas eu não vejo assim. A compra da XTech veio muito por conta da nossa cultura, de crescimento rápido, de trabalho em equipe. É isso o que eles queriam incorporar. Eu gosto de dizer que o que faz uma empresa crescer de forma escalável são as pessoas. Não é tecnologia, não é investimento. Pessoas fazem o seu negócio crescer muito rápido. Eu acredito que a grande habilidade do profissional do futuro é o aprendizado de coisas novas. É como a gente trabalha. E, com a venda, eu tenho tempo para não ficar apenas no dia-a-dia. De focar no planejamento e a na criação desse futuro que eu sonho.

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