Dia dos pais: Bruno van Enck, fundador da Barbearia Corleone, e o pai, Arno van Enck, da Choperia Munique

“Empreender se aprende em casa”

Bruno van Enck fala pelos cotovelos. Arno van Enck é de frases esparsas e curtas. Pai e filho não são lá muito parecidos, mas por isso mesmo aprendem bastante um com o outro. Bruno é o criador da Barbearia Corleone, com quatro unidades em São Paulo, mas aprendeu os fundamentos de gestão de um negócio quando começou a trabalhar no restaurante do pai, a Choperia Munique, na Zona Norte da cidade. Um mantém a tradição da família, que tem restaurantes há três gerações, o outro uniu a experiência da adolescência com a vontade de fazer algo sozinho e criou um lugar onde os homens fazem barba e cabelo à moda antiga enquanto tomam um chopinho. Mesmo voando com as próprias asas, Bruno reconhece o que a convivência com o pai valeu tanto ou mais do que a faculdade. “Tudo o que eu sei sobre varejo e comércio, foi com ele que aprendi”, diz. Nessa conversa com os dois, dentro da barbearia do Itaim, entre chopes e cortes de cabelo, um pouco mais sobre essa história.

Arno, como foi que o Bruno pegou gosto pelo empreendedorismo?

Arno: Acho que foi trabalhando mesmo. Eu tenho um restaurante desde 1984. E ele foi para lá ainda menino, para me ajudar. Sabe como é pai e filho, a gente não cobra muito… Mas ele fez tudo na choperia e depois abriu uma distribuidora usando essa estrutura. Pensei que ele fosse ficar no ramo. Minha avó já tinha restaurante, meus pais, eu… E de repente ele decidiu rapidamente fazer a barbearia e se arriscou.
Bruno: Gastei muito até conseguir ganhar o meu dinheiro, né?

Arno: Sim, até hoje estou pagando… [risos].

Bruno: Trabalho com meu pai desde sempre, o restaurante era confundido com a nossa vida, abre de segunda a segunda. Eu comecei com o meu pai aos 12 anos, carimbando cheque, somava, entregava e eu ia para o banco depositar. Aos poucos comecei a pagar as contas, sacar dinheiro, e expandindo o que eu fazia lá. Mas ele foi me ensinando e eu passei por todos os setores, comandava a cozinha, fiz curso de gastronomia, recebia no salão.

Como veio a ideia de sair do restaurante para uma barbearia?

Arno: O Bruno tinha uma distribuidora de chope e um dos clientes, que tinha um bar, tinha ido ao Rio e viu por lá uma pequena barbearia que oferecia um chope para quem fosse cortar o cabelo. Eu ouvi eu fui atrás procurar as cadeiras Ferrante, que eram as cadeiras de barbearia da época em que meu pai me levava pra cortar o cabelo. Aí ele criou a decoração vintage para combinar com as cadeiras, veio a ideia da toalha quente no rosto… E, por último, a gente juntou a experiência que temos com bar, com boa cerveja, com essa ideia da barbearia. Uma ideia que é copiada no Brasil inteiro.

Bruno: Muitas vezes o pai não percebe que o filho cresceu e que pode colaborar mais. Meu pai delegava muito pouco e eu queria fazer algo do zero, como ele fez. Comecei com uma distribuidora de chope, atuando na área dele, né? Tive sucesso mas, de novo, acordei um dia e queria fazer outra coisa… Eu sabia vender chope e comida, tinha um ótimo networking em alguns bairros da cidade, aí soube da barbearia no Rio que servia bebida para os clientes. Fui estudar como isso funcionava do mundo. Peguei um avião, fui para Nova York, fotografei tudo o que tinha lá e trouxe para cá. E aí entra a história das cadeiras. Isso é da memória do meu pai, de quando ele era pequeno…  Foi um presente dele pra mim logo no começo, em 2014, três cadeiras Ferrante que ele mandou restaurar. Hoje são mais de 50 cadeiras, estamos prestes a inaugurar a quinta unidade e o plano é começar 2020 com algumas franquias vendidas. Até hoje, quando eu quero fazer qualquer loucura, é ele quem me diz pra ir adiante.

O que vocês aprendem com o outro?

Arno: Essa coragem de inovar, de investir no que é diferente, de não ter medo de começar algo sempre. Isso eu admiro muito no Bruno.

Bruno: Hoje, com tudo o que se vê em redes sociais, tem muita gente que parece, mas não é. Meu pai é de verdade. Ele trabalhava no restaurante dos pais desde os 12 anos e abre até hoje a choperia de segunda a segunda. Me ensinou tudo o que eu sei sobre administrar empresa, do varejo, do comércio. Não foi olhando perfil de rede social com alguém falando mindset, essas palavras difíceis. E tem também a honestidade. Em 2001, ele me deu um carro e, na hora de emplacar, eu sugeri que a gente fizesse isso em Curitiba para pagar metade do IPVA. Ele me chamou de lado e disse que isso não era certo que, um dia, todo mundo que estava fazendo essa tipo de coisa pagaria de alguma maneira. E isso me marcou. De fato, pouco tempo depois, começou uma fiscalização e as pessoas tiveram que pagar os impostos atrasados e tudo o mais. E eu nunca esqueci porque ele leva tudo assim, muito corretamente.

O que você curtia fazer junto com ele quando era criança?

Bruno: Quando eu comecei a correr de kart, com 7 anos, e ele sempre me acompanhava. Eu viajava o Brasil inteiro, ele me levou pra treinar com o Ayrton Senna, lá na fazenda dele em Tatuí (SP), onde a gente ia constantemente. Estávamos sempre juntos nessa época. Eu tinha o sonho de ser piloto de F-1 e ele me incentivou muito. Mas descobrimos que tinha muita desonestidade nesse meio. O pai de um piloto ofereceu dinheiro para meu mecânico me tirar do campeonato e o cara aceitou. E foi o que nos fez desistir do kart, meu pai não queria lidar com esse tipo de coisa.

E qual foi o momento mais difícil?

Bruno: Já passamos momentos difíceis na empresa dele. Foi quando eu mais aprendi sobre trabalho e resiliência. Todos os dias a gente se reunia e contava tudo o que a gente tinha pra resolver, as contas atrasadas… E, cada pequena vitória, a gente comemorava. Uma vez por semana, íamos para um cinema ver qualquer filme juntos. E voltávamos para o restaurante para trabalhar. Isso durou uns dois anos, mas meu pai conseguiu dar a volta por cima. 


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