Caito Maia, fundador da Chilli Beans

“Eu não sou um cara talentoso, mas sou disciplinado. E isso é tudo pra mim.”

Há mais de 20 anos, Caito Maia foi para Berklee estudar música, a carreira que sonhava seguir. Tentou de tudo, passou fome longe de casa, esteve a um passo de assinar contratos com gravadoras, mas a coisa não foi adiante. Quando tudo parecia dar errado, ele comprou 200 pares de óculos escuros em um camelô e trouxe para o Brasil para fazer uma grana. E assim começou a Chilli Beans, a rede de franquias com mais de 860, 99 delas espalhadas por países, entre eles Estados Unidos, Portugal, Colômbia, México, Peru, Kuwait, Tailândia, Bolívia e Caribe. Em 2014, abriu a primeira flagship internacional na Califórnia, Estados Unidos. Para construir tudo isso, Caito diz que é necessário ser disciplinado. “É a qualidade que me leva adiante. Não sou um cara criativo, mas a disciplina e muito trabalho me trouxeram até aqui.”

Você tentou a carreira de músico antes de abrir a Chilli Beans. Se arrependeu em algum momento dessa troca?

Acho que tem gente, alguns amigos meus até, que despreza caminhos que a vida mostra. Às vezes, Deus te mostra que você pode ir por um outro caminho e você insiste em ficar naquele em que está. Eu não insisti. Eu estava em Berkeley, batalhando muito pra poder estudar música, passei fome, cheguei a ter três bandas, mas toda vez em que íamos assinar contrato com a gravadora, a coisa não ia adiante. Até que me mudei pra Califórnia e resolvi comprar 200 óculos em um camelô para revender no Brasil e vendi tudo na hora. Daí a coisa não parou, Quando eu vi que tinha outra oportunidade, de construir uma empresa muito bacana, como é a Chilli Beans hoje, eu agarrei e fui por aquele caminho. E sou muito satisfeito e feliz com ele. Somos uma empresa enxuta, que gente gera 7000 empregos indiretos, estamos em 15 países com 99 lojas e um total de 862 pontos de venda no Brasil e no mundo. E tem também o sucesso que veio com o [programa de TV] Shark Tank, que me deixa muito feliz pois leva ideias bacanas para que outras pessoas pensem em empreender. Outro dia, uma mãe me parou na rua, disse que o filho de 11 anos que assiste Shark Tank e é meu fã, querendo tirar uma foto comigo. Poxa, tanta bobagem e futilidade nos dias de hoje, se a gente plantar uma sementinha em um jovem que em vez de pensar em bobagem tá pensando no futuro dele com trabalho, já valeu o esforço.

Sua marca parece ser um estilo de vida para algumas pessoas. Como é que se alcança isso?

Não dá pra explicar. Só no meu celular tem fotos de 300 de tatuagens do logotipo da Chilli Beans tatuado na pele. E não é a pimentinha, não. É o logo, mesmo! Uma doideira. Outro dia eu estava na loja do Kuwait. E lá não pode beber, não tem balada, é fechado. E eu nem sabia como cumprimentar a vendedora. Aí a chega a menina linda, estilosa, toda coberta com o véu, veio e me deu um abraço. Ela levanta a roupa para mostrar a batata da perna e estava lá Chilli Beans escrito em árabe. Não sei explicar. A loucura, o conceito da marca se expande de um jeito meio natural… não sei explicar.

O cruzeiro da Chilli Beans [cuja sexta edição acontece de 20 a 23 de março] também foi feito em cima dessa “doideira”?

O navio virou um produto. Não é mais interno, virou algo para o mercado. Serão 5 mil pessoas e só 2 mil trabalham na Chilli Beans. O resto são consumidores que pagaram para estar ali. Serão os 25 melhores DJs do país, Marcelo D2, Iza e várias outras atrações. As pessoas piram. Tá quase tudo esgotado.

Mesmo assim são 2 mil pessoas da própria empresa. O que atrai tanto?

As pessoas se identificam com o que a gente faz. E somos uma empresa bem participativa, em que todo mundo opina. E tem outra coisa: a gente inclui, né? Há 21 anos atrás, ninguém pegava currículo de homossexuais, de tatuados… Parece esquisito falar isso hoje. Infelizmente as coisas ainda não mudaram tanto, mas é que a gente sempre montou o time respeitando as pessoas do jeito que elas eram. As pessoas até brincam que para trabalhar na Chilli Beans tem que ter taguagem. Não, para trabalhar na Chilli Beans tem que ser uma pessoa séria, que queira construir uma carreira. Independentemente da sua orientação sexual, gostos, tatuagens, de qualquer coisa…

Como foram os seus primeiros como empresário?

Depois daquela primeira leva de 200 óculos, repeti algumas vezes até que decidi tomar um passo maior e começar a bater na porta de empresas. E um louco chamado Tufi Duek, [criador] da Forum, me fez um pedido de 18 mil peças. E eu falei “meu, cê tá louco, não tenho dinheiro pra te entregar”. Então ele me pagou adiantado! Abri uma empresa de atacado, cheguei a ter 250 clientes de atacado, bombei. Mas quebrei quando dois deles me deram calote. Ou eu voltava pra banda ou eu ia pro Mercado Mundo Mix [feira cultural criada em São Paulo em 1994, que reunia produtos de várias áreas, mas principalmente moda]. No Mercado Mundo Mix, as pessoas não te perguntavam o que você vendia. Todo mundo perguntava qual era a sua marca. “Como é que é o seu logo e como é que é sua marca?”. E aí foi aí que eu aprendi essa lição, da história da marca, né? Porque quando eu vendia no atacado, isso não era importante. E aí quando eu fui pro Mercado Mundo Mix eu entendi essa importância da marca, a de valorizar a história.

Como foi do stand no mercado para a primeira loja?

Eu abri a primeira loja na Galeria Ouro Fino, que era uma galeria antiga na rua Augusta, em São Paulo. E convenci mais umas 15 marcas a abrir comigo. E ali começou a virar point, a Galeria virou point cultural do movimento das raves, dos clubs… Era uma cena importante que a gente fez parte logo no começo. Eu vendia ingressos para as raves e aproveitava para vender mais óculos. Aí veio um convite do Shopping Villa-Lobos, e isso já faz 20 anos, para abrir uma loja em um corredor fashion. Era algo super moderno. Lá estavam vários nomes de peso na época, mas eu não tinha como bancar uma loja, não tinha essa grana. E ao mesmo tempo não podia perder a oportunidade. Aí eu cheguei pro cara do shopping e disse que queria abrir um quiosque. “Pô, bicho, mas quiosque só se vende café, pão de queijo e tapioca“. Acho que na época nem tinha tapioca… Mas o cara foi muito legal, acreditou no meu conceito e topou. A gente abriu o quiosque num sábado de chuva. Chuva e óculos não fazem uma boa combinação, mas das 10h da manhã às 10h da noite as pessoas levaram tudo.

Qual a principal qualidade pra se manter crescendo por tanto tempo? O que você recomenda?

Disciplina é o segredo da minha vida. Eu não sou um cara talentoso, eu sou até um cara meio medíocre, não sou cheio de ideias. Eu sou disciplinado. O cara disciplinado faz o que ele quiser, por menos talento que ele tenha. O que eu conheço de gente talentosa que não consegue realizar nada na vida. Tem 21 anos que eu faço a mesma coisa toda segunda-feira. Na terça-feira, tem um relatório que eu recebo há 21 anos. E “ai” de quem não me manda o relatório [risos].

Tem uma área mais quente pra se empreender hoje? O que você recomenda?

Eu vejo as pessoas enlouquecidas tentando achar alguma coisa que nunca ninguém viu. Isso é tão difícil, cara. Só que ao mesmo tempo tem um monte de coisa sendo mal-feita no mercado. Ou um monte de setor que tá velho, arcaico e que pode ser renovado. Quando comecei a vender óculos, só tinha óculos na ótica. A gente pôs uma roupa diferente, uma cara diferente. E a gente renovou o mesmo setor. Então, fique atento, não fica pirando pra achar uma coisa nova, de repente. Olhe o monte de oportunidade que está na sua frente, de alguns pães franceses que não estão sendo bem assados e asse bem.  

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