Eduardo L’Hottelier, fundador da GetNinjas

“Quando é importante para o negócio, não tem opção: ou você aprende ou aprende.”

Aos 26 anos, Eduardo L’Hottelier deixou uma carreira que estava começando a trilhar no mercado financeiro para se dedicar ao GetNinjas, plataforma que conecta prestadores de serviços a quem quer contratá-los. De técnico em eletrônica a personal trainer, são mais de 200 categorias. No início era apenas ele, um sócio (que acabou saindo para ocupar um cargo na área pública) e um estagiário. Depois de seis meses, veio o primeiro investidor e, com o primeiro aporte, de R$ 1 milhão, a possibilidade de ser empreendedor em tempo integral. Oito anos depois, são 100 funcionários, R$ 47 milhões de reais investidos e transações que somam R$ 350 milhões por ano em serviços prestados – além da expansão para o México, a mais nova praça do GetNinjas.“Há um mercado de R$ 300 bilhões em serviços no Brasil e que pode crescer ainda mais se for estruturado. Contamos com isso para multiplicar o tamanho por 10, 100 vezes”, diz. Aqui, esse engenheiro da computação convertido em empresário nos conta os principais aprendizados de seu caminho até agora.

O que é importante para se estabelecer uma equipe produtiva, criativa e feliz?

Estamos contratando constantemente, toda semana eu participo de um processo de seleção. Reter gente boa, principalmente na área de tecnologia, é muito difícil. Então, há uma série de medidas para manter uma equipe. Costumo dar autonomia para que as pessoas se sintam como se tivessem sua própria empresa para administrar, para que suas decisões sejam colocadas em prática, sem alguém mudando algo o tempo todo ou interferindo em tudo. Assim, elas conseguem ver o resultado do seu trabalho de fato e não se perdem em um monte de números, metas e relatórios. Não sei se isso aumenta a produtividade particularmente, mas o trabalho sem dúvida fica melhor. Um dos benefícios é dar ações da empresa para quem está indo bem. E, por fim, investir em manter o ambiente bom. Estamos bem localizados na cidade, temos uma churrasqueira na varanda onde fazemos um churrasquinho toda quinta à noite… Enfim, procuramos criar um ambiente gostoso para que as pessoas gostem de ir até o GetNinjas.

O que aconteceria se você tivesse que deixar o GetNinjas hoje? Que falta você faria na empresa?

Eu costumo dizer que a empresa tem que andar sem o fundador. Se eu passar três meses em coma, quando eu voltar a empresa tem que estar funcionando normalmente [risos]. Mas minha principal função hoje é ouvir todo mundo, quem concorda e quem discorda. Como engenheiro da computação, no começo não foi fácil. Estava mais acostumado a trabalhar sozinho. Mas foram sete anos e, a cada dia, aprendi um pouco mais. Quando alguma coisa é importante para o negócio, não tem opção: ou você aprende ou você aprende.

E o que você aprendeu de mais importante em sua trajetória?

Muitas coisas. A ouvir melhor, não ser arrogante, não achar que sei tudo. No comecinho da empresa, a gente se trancava muito no escritório para desenvolver uma solução sem falar com o usuário. Quando lançamos o GetNinjas, toda cotação que o profissional enviava tinha que ser online. Então, um dia, a gente precisou de um profissional para fazer uma sala de dry wall em nosso escritório. Medimos tudo e pedimos a cotação. Todos os prestadores disseram que precisavam fazer uma visita técnica antes de passar o orçamento. Mas nessa época a gente não permitia visita técnica antes de fechar o preço. A gente falou: “não, você tá no GetNinjas, tem que dar o preço online!”. Depois de muito custo, um dos profissionais passou um valor, chegou lá depois de alguns dias pra começar a obra e, ao vivo, percebeu que aquela sala que a gente tinha “arquitetado” não poderia ser feita da maneira como havia sido orçada. A gente brinca que engenheiro de computação é engenheiro de mentirinha… Mas éramos três engenheiros e não conseguimos fazer um projeto de uma salinha de reunião. Os primeiros seis meses de trabalho tivemos que jogar fora porque a gente tinha uma arrogância de achar que sabia mais do que nossos profissionais, talvez porque a gente tinha diploma superior, porque éramos engenheiros… Foi um aprendizado muito importante.

Onde você buscou apoio para começar o negócio?

No comecinho eu tinha um sócio e um emprego. Trabalhava em consultoria de gestão e no mercado financeiro e usava os finais de semana, noites e madrugadas para colocar o GetNinjas de pé. Tínhamos também um estagiário que a gente chamava de “estagi-equity” porque ele não ganhava nada, mas teria ações da empresa mais adiante se tudo desse certo. Nessa época, não tínhamos dinheiro para nada, então contei minha ideia para algumas pessoas que poderiam me ajudar. Uma dessas pessoas, um amigo que nunca trabalhou na empresa, me ligou uma semana depois e disse que tinha achado uma plataforma na Índia que fazia exatamente o que eu queria vender aqui no Brasil. Negociei e comprei a plataforma por cerca de R$ 1.200 na época! Foi essencial. Se eu não tivesse dito e se ele não tivesse encontrado aquela plataforma, teríamos meses e mais meses de trabalho para desenvolver na mão. 

Como veio o primeiro investidor?

Outra história de gente que acreditou no negócio. Nós não tínhamos dinheiro pra fazer a divulgação ou pra fazer marketing, então eu peguei a lista de todas as assessorias de imprensa do Brasil no site da Abracom (Associação Brasileira de Agências de Comunicação) e mandei um email pra cada uma falando da minha ideia – e do quanto acreditava que ela iria decolar. Mas, como eu não tinha dinheiro pra pagar, no começo teria que ser em troca de portfólio. Das centenas de pessoas que eu procurei, uma assessoria de imprensa acreditou e trabalhou pra gente sem cobrar durante os três primeiros meses. Com isso, conseguimos divulgação e um investidor acabou encontrando o GetNinjas. Mas não acho que se deve sair procurando o investimento a todo custo. O melhor é ir construindo a empresa pensando no cliente, em prestar o melhor serviço. O investidor nada mais é do que um possível cliente que gostou da ideia e resolveu colocar dinheiro nela.

E o que você acha que esse primeiro investidor viu em sua ideia?

Os primeiros fundos foram a Monashees Capital e a Kaszek Ventures, seis meses depois que fundamos a empresa, com R$ 1 milhão de aporte. Mais do que capital, eles trouxeram apoio para a gestão, mentoria, ajudaram a contratar os primeiros talentos, a mudar o produto para que os clientes ficassem mais satisfeitos… Acho que o tamanho do mercado de serviços no Brasil, que é de R$ 300 bilhões, ajudou a atrair. Eles também viram a execução inicial: eu e meu sócio, mesmo com pouquíssimos recursos, conseguimos colocar alguma coisa no ar. Não era perfeito e ainda estava longe de ser bom, mas já era alguma coisa, já tava testando mercado, ja tinha algum usuário pra dar um feedback…

Qual o conselho mais importante para quem está empreendendo?

Conte a sua ideia para o maior número de pessoas possível. As pessoas não contam para outras o que pretendem fazer por medo de que alguém faça igual, roube a ideia… Mas depois não executam o plano porque não encontraram o sócio ideal ou deixaram de ouvir bons conselhos que poderiam vir de quem já está no mercado. Então, contando a sua ideia pra muita gente, você pode conseguir luzes que te ajudem a trilhar seu caminho. E, quando você lançar o seu projeto, ele vai estar muito mais estruturado. O cemitério de ideias que nunca foram executadas é muito maior do que a quantidade de ideias que foram roubadas.

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