Eloi D’Avila, Fundador da Flytour

“Ninguém empreende sozinho. Ajudei e fui ajudado.”

A Flytour tem 45 anos e, nessa trajetória, Eloi D’Avila se orgulha de dizer que sobreviveu a mais de uma dezena de planos econômicos, crises e mudanças drásticas na economia. Ex-menino de rua, ele saiu do Rio Grande do Sul aos 8 anos para tentar a vida em São Paulo. Morou nas ruas, apanhou, chegou a pensar em por um fim a tudo. Mas persistiu e hoje tem uma empresa de que se orgulha e que vê como a própria família. São mais de 2 mil funcionários diretos e 3.600 ao todo, incluindo os que trabalham nos 100 franqueados. A área de franchising, tocada por um dos filhos de Eloi, Fabio Oliveira, fatura cerca de 1 bilhão de reais por ano. Hoje, a Flytour é a segunda agência de viagens do país e sua área de viagens corporativas, a Flytour Business Travel, é a primeira em seu mercado. São 500 mil bilhetes aéreos vendidos por dia. Simples e direto, Eloi conta aqui um pouco da sua trajetória difícil e admirável. E diz que está pronto para apoiar startups que queiram aprender com sua experiência. “Você não pode fundar sua empresa e vender no dia seguinte. Você tem que vencer e sobreviver dela, depois vender”.

Você teve uma infância muito pobre e solitária. No que se agarrou para conseguir sobreviver a tudo o que passou? E o que isso trouxe para sua vida e carreira?

Eu sou o décimo quarto filho e minha mãe morreu de parto quando eu tinha menos de dois anos. Meu pai deu todos os filhos e eu, aos 3 anos, fui morar com minha irmã, de 14, que já estava casada. E eu comecei a vender pastéis no bairro, só que eu já tinha um sonho de viajar, buscar alguma vida melhor. Eu vivia fugindo de casa e apanhava quando voltava. Fugi várias vezes. Com oito anos, fui para São Paulo e me colocaram de volta no ônibus, fui parar no Juizado de Menores, fiquei preso, voltei pra casa e fugi de novo. Aos oito anos e meio eu estava definitivamente em São Paulo. Encontrei muita gente nesse caminho. Um ex-militar, seu Manuel, que me encontrou na Praça da Sé, morando nas ruas ou em albergues, que me levou pra casa e deu minha primeira experiência familiar. Depois teve um guia da Stella Barros, Paulo Geraldo Silveira Tavares, que me levou para o escritório para que eu o ajudasse, e a própria vovó Stella, que me deu um emprego de office boy, me levou para o dentista, pois eu havia perdido os dois dentes da frente quando levei um soco de um padeiro que eu xinguei. Ela me ensinou a falar o português correto. Eu encontrei muita gente que me ajudou na vida. Meus sogros, o general Calvetti da LAP, Lineas Aereas Paraguaias, onde comecei uma carreira de vendedor de sucesso e aprendi muito. Enfim, fui muito ajudado. E ajudei também muita gente a subir, a crescer.

Quando você decidiu empreender?

Eu trabalhava na LAP como vendedor e eu era muito bom. Mas o problema é que eu era tão bom que eu vendia mais assentos do que havia disponíveis. E eu era mandado embora por conta disso. Até que na quarta vez que me mandaram embora, eu pensei que precisava começar algo, “startar”, como se diz hoje. E naquele momento não era “startar”. Empreendedorismo era aventura. E eu fui aventurar. Então eu conheci um amigo que tinha uma agência dentro do hotel São Rafael, na avenida São João. E fui lá pra uma mesa com ele, peguei uma representação de um hotel que eu conhecia muito no Paraguai, era um hotel cassino. E percebi, então, que eu não podia mais ser empregado de novo. Caí muitas vezes, cheguei a perder tudo, carro, casa. Mas sempre por minha própria conta e risco. Hoje o grupo vende 500 mil bilhetes aéreos por mês. São muitos Boeings e Airbuses lotados por dia. Eu diria que nós lotamos 22 Copacabana Palace por dia em termos de hotelaria.

Você tem uma história de longevidade nos negócios. Qual foi o segredo de sobreviver a tantos planos econômicos, crises, alta do dólar etc?

E muito difícil ser uma empresa desse tamanho e em um setor que está enfrentando uma crise desde 2013. Acho que eu passei por 14,15 planos econômicos como empresário… É uma sobrevivência e é um aprendizado também. E eu sempre me preparei, durante as crises, para o final delas. Quando os clientes retornam você tem que estar pronto para crescer, tem que estar ainda melhor do que era antes. Esse é o meu ponto com os empresários, eu bato muito nessa tecla. Você tem que ter visão de futuro sobre o que desenvolve. As empresas daqui ficaram muito acomodadas. Tá todo mundo esperando um milagre, não vai ter.

Quais são seus próximos passos como empresário, agora que não está mais no comando do grupo Flytour? (Desde 2016 é Christiano Oliveira, filho de Eloi, que está no comando do grupo)

Agora tenho um sonho de criar uma empresa onde eu possa trabalhar com  jovens empreendedores com startups. Às vezes você não tem oportunidade de ter alguém ao seu lado que te ensine, e você precisa desse conhecimento. Não basta você ter 30 diplomas, você tem que ter o conhecimento, que foi o que esses gurus que eu tenho na minha vida me trouxeram. E o que acontece com as startups ainda é a falta do conhecimento em administrar o sonho. Aprendi que tem duas coisas importantes: planejar e fazer. Tem que fazer, por a mão na massa. Eu fiz de tudo. Não tem nada hoje que eu me recuse a fazer e ensinei meus filhos assim. Quem não faz, não aprende. E, claro, planejar tudo o que você vai fazer, mesmo que esses planos mudem no caminho. Planejar é muito importante. Planeje e siga o plano. Você não pode empreender e vender no dia seguinte o seu negócio. Você tem que empreender e ganhar e sobreviver dele. Depois você vende. Isso é empreender. É provar para você mesmo que você conseguiu entregar.


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