João Pedro Resende, Cofundador da Hotmart

“Empreender é aprender a lidar com o caos”

Ainda na faculdade, João Pedro Resende sonhava grande. Queria ter um grande empresa, com muitos funcionários, que fosse conhecida por muita gente. Juntou os amigos, criou uma produtora de apps e, dois anos e meio depois, havia praticamente quebrado a empresa por conta de erros que hoje considera básicos. “Nos unimos a sócios que não tinham nem perfil, nem caráter pois não entendíamos nada de marketing ou vendas. E isso é core business, não dá pra delegar”, diz. Dessa época, além das lições, JP, como é conhecido, guarda um cheque que foi sustado pelo ex-sócio na partilha da primeira empresa. “Tenho um cheque de 16 anos na minha gaveta para me lembrar dos erros que cometi no passado e não posso cometer novamente.”

Hoje, ele está à frente da Hotmart, uma plataforma em que profissionais e criadores de conteúdo podem colocar suas habilidades à venda, oferecendo cursos, apostilas ou e-books, por exemplo, para quem quer aprender sobre assuntos tão variado quanto marketing digital ou os primeiros acordes de guitarra. É possível também ajudar a divulgar os cursos e ganhar uma comissão pelas vendas. Hoje, são 370 funcionários, 5 milhões de usuários no mundo todo e filiais em Bogotá, Madri, Amsterdã e Cidade do México. O sucesso, porém, não é uma linha reta. E João Pedro conta aqui como trilhou esse caminho.

Qual o maior tombo que você já tomou na carreira?

Eu saí da faculdade muito cedo, cheio de sonhos e ideias de criar uma empresa gigantesca… E criamos um primeiro negócio, de aplicativos móveis, que deu errado por uma série de razões. E estava tudo indo bem até que a gente tomou a primeira grande porrada: por uma série de decisões erradas, tivemos que fechar a empresa em pouco mais de dois anos. A quebra da minha primeira empresa serviu como aprendizado para o sucesso da segunda. Entender o problema real e reconhecer o erro é o primeiro passo para acertar da próxima vez.

E qual foi esse aprendizado?

Um deles é que estávamos muito à frente, em termos de tecnologia, do que o mercado podia absorver. Mas a principal lição dessa época é não delegar o core business da empresa. E marketing e vendas é core business. Mas vieram outras lições muito importantes. A gente chamou as pessoas erradas em diversos aspectos, tanto profissionais quanto em termos de caráter, nos ajudar com o que não sabíamos. Éramos três sócios técnicos, cientistas da computação – e ninguém sabia vender ou fazer marketing. Acabamos tendo que quebrar a empresa pois não tinha como prosseguir com aquelas pessoas, que estavam levando a empresa para onde a gente não queria. E, quando a gente foi acertar com esses outros sócios o que tinha sobrado, eu acabei recebendo três cheques de um deles. O último cheque foi sustado, mas eu nem fui atrás, deixei pra lá, não queria por minha energia nisso. Só que até hoje o cheque está lá. Tenho um cheque com 13 anos de idade na minha gaveta pra me lembrar dos erros do passado e não cair nisso novamente!

Você deu um tempo do empreendedorismo e virou funcionário. Como você se sentiu fazendo essa pausa?

Havia uma frustração, mas eu enxergava a possibilidade de ter uma nova experiência e também de ganhar dinheiro, porque eu não ganhei dinheiro nenhum na primeira empresa…[risos]. E fiz uma carreira bem acelerada. Comecei como programador e virei gerente de projeto, três anos depois. Mas, quando eu estava na melhor fase, joguei tudo pro alto e fui empreender de novo. Além disso, durante essa carreira, eu gerenciava uma comunidade de jogos online com alguns amigos, como hobby, e nesse site eu assumi a função de marketing, justamente para aprender sobre a área em que eu era mais deficiente. Acabei ficando muito bom em marketing digital, SEO, tráfego… Tanto que escrevi um manual sobre isso e coloquei à venda. E daí veio a ideia da minha segunda empresa, a Hotmart. Foi nessa época também que eu conheci bons profissionais, gente que eu trouxe pra trabalhar comigo e está até hoje.

O que aprendeu de mais importante com sua equipe?

Que sacrificar controle em prol de autonomia vale a pena quando as pessoas estão alinhadas com seus valores e crenças.

E qual foi o limão que você transformou em limonada?

Uma outra situação marcante para mim foi um problema respiratório grave que eu tinha desde criança e que me acompanhou até o início da idade adulta. Por causa dele, houve um dia específico em que eu quase morri. Me lembro como se fosse hoje… eu tentando buscar o ar para respirar e não encontrar nada, enquanto meus pais desesperados me viam ficar roxo, sem saber o que fazer. Não sei exatamente como nem porque voltei a respirar naquele dia. Eu tinha certeza que ia morrer. Depois de alguns anos, vez ou outra eu me lembro deste episódio e ele me serve muito para me lembrar de algo que minha avó sempre dizia “Para morrer, basta estar vivo”. Eu ganhei consciência muito cedo que as coisas podem acabar a qualquer momento e exatamente por isso eu tenho moldado minha vida para passar a maior parte do meu tempo realmente focado em fazer as coisas que eu mais acredito.

Em que momento você soube que a empresa iria se transformar no que ela é hoje?

Quando eu e meu sócio, Mateus Bicalho, começamos, não tínhamos dinheiro. Sabíamos desde o começo que o negócio seria grande, mas a empresa tinha um certo tempo de vida, um tempo contado no relógio. Tínhamos que arrumar uma forma de fazê-la sobreviver, fosse lucrando logo de cara ou recebendo algum tipo de investimento. Nesse meio tempo, vencemos uma competição de startups feita pelo Buscapé. Eram 800 competidores e nós levamos o prêmio, de R$ 300 mil. Acho que foi a primeira competição de startups que teve no Brasil… E foi também o primeiro ponto de virada da Hotmart, deu o fôlego que a gente precisava. Então, nem sempre é apenas uma coisa que vai fazer o negócio dar certo. São várias, você tem uma escada. As pessoas acham que crescer é uma linha constante mas você fica um tempão batendo a cabeça e, de repente, dá um salto… É mais uma escada do que uma linha reta.

Qual a qualidade essencial para criar negócios novos e mudar de rumo?

Para criar novos negócios acredito que uma só qualidade não basta, mas se fôssemos reduzir a algumas coisas eu diria que repertório e disponibilidade para correr riscos são premissas tanto para conseguir criar algo novo como para mudar de rumo. Repertório é a capacidade que alguém tem de observar o meio, extrair informações desse meio e cruzá-las enxergando problemas e oportunidades que talvez ainda não estejam claros para a maioria das pessoas. Disponibilidade de correr risco está presente tanto na decisão de iniciar um negócio como na decisão de mudar de rumo. Não há mudança sem riscos, mas não mudar já oferece um risco por si só.

Qual o ensinamento mais importante que você recebeu durante sua trajetória de empresário?

No campo profissional, foi uma frase de um dos investidores da Hotmart, Kees Koleen (um dos criadores e responsáveis pelo sucesso do booking.com): tem que ser rápido. “Speed, speed, speed”, ele diz. Velocidade em fazer a empresa crescer. Nos mercados tradicionais, existe uma preocupação em criar processos, em deixar tudo afinadíssimo. Na startup, na hora em que você termina de organizar o setor, a coisa já mudou. Tem que aprender a conviver com as coisas fora do lugar, mas não a ponto de tudo quebrar. Você até pode ir mais devagar, mas vai concorrer com quem está indo mais rápido. Empreender é aprender a se equilibrar entre a calma e o caos.

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