Dia dos namorados: Mônica Hauck e Alessandro Garcia, sócios na Solides

“Trabalhar é algo que a gente ama fazer juntos”

Com dois meses de namoro, Mônica Hauck e Alessandro Garcia foram morar – e empreender – juntos. E assim construíram a Solides uma empresa que cresce 200% ao ano.

Um dia, Mônica Hauck recebeu uma mensagem via ICQ, o extinto programa de mensagens instantâneas, e começou uma conversa. Do outro lado estava Alessandro Garcia, que aproveitava os pulsos grátis da internet discada e trabalhava durante as madrugadas em seu e-commerce. Alguns meses depois, estavam morando juntos e, em seguida, Mônica deixou o emprego no banco e virou sócia de Alessandro em seu primeiro negócio, uma loja virtual de produtos agrícolas. Esse foi só o comecinho. Dezessete anos depois, o casal têm dois filhos, Heitor e Catarina, e uma empresa com 130 funcionários, a Solides, uma HR Tech (companhias que usam a tecnologia para questões ligadas a Recursos Humanos), com sede em Belo Horizonte, e que faz parte do programa Scale up, da Endeavor. “Criamos um software que gere todo o processo, desde a seleção e recrutamento de profissionais, levando em conta a questão comportamental”, diz Mônica. Ela ainda encontra tempo na agenda para dar mentoria a outros empreendedores como forma de contribuir com a melhoria desse ambiente no país. “Eu cresço muito conversando com outras pessoas, além de ser uma estratégia para fortalecer o ecossistema.”

O pulo da Solides foi detectar um nicho de mercado. No Brasil, apenas 20% das demissões acontecem por motivos técnicos, o restante dos profissionais é desligado por razões comportamentais. Mas antes os testes para detectar esses padrões de comportamento, por serem caros, ficavam restritos à turma da gerência pra cima. “A gente resolveu criar um teste acessível e ocupar um espaço nesse mercado”, diz Alessandro. Desde 2016, quando mudou a atuação e entrou para o programa Scale up, da Endeavor, a Solides passou a crescer 200% ao ano. Nesse momento, a carga de trabalho e a pressão cresceram muito. E Alessandro precisou de um tempo – seis meses na verdade – para se refazer. “Tive um burn out e precisei sair e me cuidar”, conta. Mônica seguiu adiante. “Aí eu fui perceber o quanto eu precisava amadurecer, dar mais espaço, respeitar o tempo do outro. Entendi que o que é diferente de mim também é necessário”, diz. Apesar do momento difícil, eles superaram e aprenderam com esse obstáculo. E essa mistura entre sensibilidade e execução vem dando certo há quase duas décadas. O casal mostra nessa conversa como encontrou o equilíbrio.

Vocês fazem um teste de perfil de comportamento. Quais as diferenças de perfil de vocês?

Mônica: Eu sou mais agressiva, ele é mais sensível. Ele tem mais perfil de entender as pessoas, eu passo um pouco batido por isso e vou ver depois o que aconteceu… Meu perfil é executora e comunicadora, o dele é analista e planejador. Mas com o tempo a gente vai aprendendo com o outro, a olhar mais, a dar espaço também.

Alessandro: Hoje a gente conseguiu encontrar um formato. Na operação da empresa, quando alguma área necessita do perfil dela, eu saio. E vice-versa.

Vocês atuam em áreas distintas na empresa ou dividem tudo?

Mônica: A gente não divide os cargos daquela maneira clássica. Quando o marketing precisa de processos, de uma estrutura mais lógica, vai ele. Se o marketing precisa de criatividade e de energia, vou eu. É uma estrutura meio caótica, mas a gente se encontra nela. A conclusão da minha vida é que o mundo é totalmente caótico. A ordem é uma utopia que a gente criou. Não é que eu não tenha agenda ou processos. Eu entendi essa importância e eu tenho me adaptado e curtido isso. Mas, pra mim, ainda é mais tranquilo operar no caos e na emergência.

Alessandro: As minhas atividades são todas agrupadas, minha agenda é organizada, a Mônica chega e bagunça tudo [risos].

O faturamento de vocês saiu de um crescimento anual de 20% para 200%. Como foi esse momento na vida e na carreira?

Mônica: Isso foi de 2015 para 2016. A gente estava no processo da Endeavor e também fomos fazer um curso em Stanford, em inovação e empreendedorismo. Fomos nós dois e nossos filhos. O Heitor tinha dois aninhos… Eu não iria ficar um mês sem eles de jeito nenhum! Então levei minha mãe e fomos todos. Aliás, sempre foi assim, tudo junto. Lá, algumas fichas caíram sobre essa história de crescimento exponencial.

Alessandro: Eu achava que crescimento era uma curva, que não seria possível esse degrau enorme que a gente saltou. Mas chegando em Stanford tomei um tapa na cara e aprendi metodologias que tornaram esse crescimento possível. Aí viramos a chave em 2016. Tivemos uma mudança enorme, de mudança no fluxo de caixa etc. A gente fez uma manobra muito arriscada e sem investidor. Eram 20 funcionários na época… E de lá pra cá nosso faturamento cresce 10% ao mês. Somos a maior HR Tech do Brasil, com mais de 1500 clientes. Nosso grande foco são pequenas e médias, mas temos nomes mais conhecidos como Estácio, Ibmec, Bradesco, Scania, Sambatech, Hotmart… A rotatividade média dos quadros de funcionários nas empresas do Brasil é 40%. A dos nossos clientes é 20%.

Houve algum momento em que vocês colocaram os negócios na frente do amor?

Mônica: Acho que a gente faz isso com uma certa frequência [risos], porque a gente ama o negócio também. A gente fala muito de trabalho em casa, no final de semana… Nossa casa é um grande escritório, fazemos reunião lá, as crianças sabem do nosso ritmo e querem participar das coisas, vão com a gente pra empresa. Mas, claro, às vezes a gente para e vai assistir desenho com eles. E a gente se policia. Se tem alguém exagerando, o outro dá um toque pra ficar mais tempo com os filhos. Mas até eles amam ir pra Solides com a gente. Lá tem muita mãe que leva os filhos pro trabalho, tem sala de jogos… Sem contar as viagens em família que a gente faz todo ano. Na última, pegamos um carro em Paris e fomos até a Croácia. É algo que a gente ama fazer junto. E apesar das diferenças de perfil, os valores são iguais. O jeito que a gente quer criar os filhos, o que queremos do futuro, são muito parecidos.

Alessandro: A gente sempre coloca as crianças nos nossos programas e viagens. Para mim, isso não era normal, viajar sem planejamento, pegar um carro e simplesmente sair por aí. Aprendi isso com a Mônica.

Que diferença essa relação trouxe para a vida de vocês?

Mônica: Em vários momentos, se eu não o amasse, se ele não fosse meu marido, eu teria desistido. O fato de eu ter muito mais a perder me fez segurar a onda muitas vezes e não brigar, não explodir. Hoje sou mais contida, mais calma, controlo minhas explosões. Porque, se eu brigasse, eu não perderia só o sócio. E isso trouxe resiliência pra minha vida. Não me deixou desistir na hora errada. Hoje eu explodo de um jeito bem mais suave. Com ele, aprendi a brigar menos, a me acalmar…

Alessandro: E eu aprendi a brigar um pouco mais [risos]. Sou muito pacato. E essa convivência me despertou a ambição. Queremos construir algo que não existe no Brasil, um case de sucesso mesmo. E essa energia da Mônica me contagiou, ela tem muita vida. Ela aproveita tudo o tempo todo, extrai o máximo das coisas.

Qual foi a maior dificuldade e como vocês superaram?
Mônica: O meu trauma é que eu forcei um pouco a barra uma época. Eu queria muito crescer rápido, mas não era o momento e ele sabia disso. Mas eu só queria o resultado e acabei atropelando. Eu segui minha natureza sem respeitar a dele. E ainda tivemos problemas com os líderes desenvolvedores que contratamos. A gente delegou a estratégia e isso é indelegável. Nesse momento, por conta de tudo, o Alessandro teve um burn out e eu tive que tocar a empresa sozinha por seis meses. E olha que ele é muito resiliente, hein? Eu não tinha motivação para trabalhar, mas precisei levantar e continuar. As pessoas dão muito valor para motivação, eu dou muito valor para obstinação. Eu tinha que seguir. Sabia que as fases sempre passam, tanto as boas como as ruins.

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